quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Pensar em você - Chico César

é só pensar em você que muda o dia
minha alegria dá pra ver
não dá pra entender
nem quero pensar se é certo querer
o que vou lhe dizer:
um beijo seu e eu
vou só pensar em você
se a chuva cai e o sol não sai
penso em você
vontade de viver mais
e em paz com o mundo
e comigo
(e consigo)Pensar

O motivo - um pequeno trecho

Um trecho de um conto que escrevi, altamente influenciada por Caio Fernando Abreu.

E eu disse que precisava saber o que o fez voltar e disseste que precisavas dizer-me o que o fez ir. E parecíamos ter medo da descoberta. Estávamos tão próximos do fim. Tu choravas como uma criança que deixou o sorvete cair no chão e, de repente, via-me forte como nunca achei que pudesse ser. Disse a ti que tinhas me ferido, que mulher, nem qualquer ser humano, precisava passar por aquilo. E tu ficaste calado. Olhando-me assustado. E viraste de costas como se fosse fugir. E eu tinha certeza de que tu irias. Mas resolveste ficar. Disseste-me então que nunca deveria ter partido, que viveu os piores anos de tua vida longe de mim. Mas neguei-me a cair, mais uma vez. Eu só queria que tu me falasses o motivo e mais nada. Depois, que fosse embora para sempre. E vieste com uma história comprida, de conhecimento de novos horizontes, medo de ser aquilo mesmo, de que realmente eu fosse a mulher da tua vida e outros blá blá blás. E enquanto tu me dizias isso, uma raiva imensa foi me corroendo por dentro. E eu passei a pensar o quanto era babaca por tê-lo esperado. Sim, não havia como negar, durante esses cinco anos só o que fiz foi esperá-lo, às vezes com amor, outras com ódio, mas na maioria, só por curiosidade mesmo. Mas ao mesmo tempo, em que te ouvia falar, toquei-me o quanto ainda o amava e comecei a ter vergonha de mim mesma por isso. Comecei a chorar e tu achaste que era alguma coisa que havias dito. Não, não tinha nada que pudesse falar que me faria chorar tanto o quanto já estava chorando. Pediste-me perdão novamente, enquanto eu vertia lágrimas por todo o meu ser. Era tanta coisa que precisava ser dita e nós não tínhamos a menor idéia de como deveríamos começar. Disseste-me coisas belas e tristes, mas em nenhum momento o que eu queria que tu me falasses. Sentei, enfim, na mesma cadeira em que estava quando partiste. Foi nesse exato momento em que te calaste. Finalmente percebeste o que acontecia. Disseste-me finalmente que era um covarde, que essa era a resposta por tudo o que havia feito. E, neste momento, eu já não tinha mais nenhuma força e tu me abraçaste e começamos a nos beijar enlouquecidamente, como se aquilo fosse a única saída existente para nós. E talvez fosse. E me levaste para a cama e transamos como a última vez para um condenado à morte. E fui repetidas vezes ao céu e te olhava como um sonho distante, desses além do fim do mundo. Depois do choro, o riso. Sentia-me tão leve,... Como uma pluma indo em direção ao sol se pondo. Adormecemos um no braço do outro, como nos tempos de antes. E acho que foi, neste momento, que algo mudou dentro de mim... Só o que te peço é que não venhas atrás de mim outra vez. Quando nós fechamos um ciclo de nossa vida é para sempre. Sem volta. Não sei se te entendo, nem sei porque voltaste agora, cada um sabe de si, a vida não é assim?

Aug 6, '05 9:40

Próspero em A Tempestade - Shakespeare

Oh, elfos das colinas, rios, vales,
que sem jamais deixar marcas na areia,
a fuga de Netuno perseguis
e cavalgais a glória do refluxo!
Oh, vós, semidemônios que falhais
E vós por cuja arte
escureci o sol do meio-dia,
o tumulto dos ventos conclamei,
Entre o verde do mar e o azul do céu
criei a Guerra, e ainda incendiei
o trovão que alucina, estraçalhando
de Júpiter o tronco do carvalho
com o próprio raio - e o vasto promontório
sacudi; e das bases arranquei
o pinho e o cedro; sob o meu comando
as tumbas libertaram seus defuntos,
Graças à minha arte.
Mas tal mágica aqui renego;
Os meus encantos se acabaram,
E as minhas forças, que restaram,
são fracas, e eu sei verdadeiro
que ou cá me fazem prisioneiro
ou podem me mandar pro lar.
Não me obriguem a ficar
nesta ilha que é só deserto.
Quebrem os meus votos vãos
com a ajuda de suas mãos;
Não tenho mais arte, espírito ou engenho:
Meu fim será desesperação
Se não tiver sua oração,
Que pela força com que assalta
Obtém mercê pra toda falta.
Quem peca e quer perdão na certa,
 Por indulgência me liberta.

Aug 8, '05 10:34 PM

Harriet - Caio Fernando Abreu

Este trecho faz parte do conto Harriet, do livro Os dragões não conhecem o paraíso. Sim, ele é todo escrito em letra minúscula e sem pontuação.

"Sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus como você me doía vezenquando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando olhando e pensando meu deus ah meus como você me dói vezenquando"

Aug 23, '05 2:15 PM

Aqui ou em Bangladesh

Por que sempre que nos vemos
me perguntas quando vou embora
Quando tu já me expulsaste?
Qual a diferença pra ti se estou aqui ou em Bangladesh,
em Amsterdã ou em Barbados?
Se não estamos mais juntos,
o que modifica em ti
a minha ida
ou a minha volta?

Me deixa,... que hoje eu tô de bobeira,...

Aug 23, '05 3:58 PM

Pensamentos desconexos no metrô



Um lapso, um passo
Um acesso rápido
Navegado por cálculos
Raios de luz disformes
Inexato expresso
Exíguo lasso

Erro
Não entra
Lento
Rápido.

Não chega não anda não acontece.
Falta de ar de saco de paciência.

Embrulhos grandes
Sacolas enormes
Cansaço
Dói, não dói.
Calça curta, sapato alto.

É a moda.

Bregas displicentes
Cansados disformes
Silenciosos.
Sapatos velhos, calcanhares ressecados.
Ombros pra frente
Olhar perdido
Homem bonito parado no canto
O que pensa?

Penso constantemente na morte.
Ela está à espreita
Quando virá?
Dará tempo ou ficarei a dever?
Erro crasso num singelo lapso.
Conversas desinteressantes
Pra passar o tempo
Remexer a bolsa
Porque não há nada mais a fazer
Vaga um lugar.
Ele cede
Ela senta e não agradece.
Elas mexem no cabelo.
Eles nem olham.
Estão cansados.
Não querem mais passar o tempo.

Aug 23, '05 4:31 PM

Vermelho Sangue

Cor sublime
Vermelho sangue
Retalha a pele.
Estanca a alma.

Aug 23, '05 4:34 PM