domingo, 18 de dezembro de 2011

Preciso Dizer Que Te Amo, Cazuza

(Acho que acordei apaixonada hoje. Então um pouco de Cazuza,...)

Quando a gente conversa
Contando casos besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me dá um medo (que medo...)
Eu preciso dizer que te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que te amo, tanto
E até o tempo passa arrastado
Só para eu ficar ao teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre, e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo (que amigo!)
Que eu preciso dizer que te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Que eu preciso dizer que eu te amo, tanto

Jan 10, '05 11:25 AM

Fumo, Florbela Espanca


Longe de ti são ermos os caminhos.
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são outonos: choram... choram...
Há crisantemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...


Poemas de Florbela Espanca, Martins Fontes, 1996 - S. Paulo, Brasil

Dec 29, '04 6:07 AM

Febre 40°, Sylvia Plath


Pura? Como assim?
As línguas do inferno
São sujas, sujas como as três

Línguas do sujo e gordo Cérbero
Que arfa ao portão. Incapaz
De lamber e limpar

O membro em febre, o pecado, o pecado.
A chama chora.
O cheiro inconfundível

De um toco de vela!
Amor, amor, a fumaça escapa de mim
Como a echárpe de Isadora, e temo

Que uma das pontas ancore-se na roda.
Uma fumaça amarela e lenta assim
faz de si seu elemento. Não vai subir,

Mas envolver o globo
Sufocando o velho e o oprimido,
O frágil

Bebê em seu berço,
Orquídea pálida
Suspensa em seu jardim suspenso no ar,

Leopardo diabólico!
A radiação o embarque
E o mata em uma hora.

Engordurando os corpos dos adúlteros
Como as cinzas de Hiroshima que os devora.
O pecado. O pecado.

Meu bem, passei a noite
Me virando, indo e vindo, indo e vindo,
Os lençóis me oprimindo como o beijo de um devasso.

Três dias. Três noites.
Limonada, canja
Aguarda, água me deixe enjoada.

Sou pura demais pra você ou pra qualquer um.
Seu corpo
Me ofende como o mundo ofende Deus. Sou uma lanterna -

Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele folheada a ouro
Infinitamente delicada e infinitamente cara.

Meu calor não te assusta. Nem minha luz.
Sou uma camélia imensa
Que oscila e jorra e brilha, gozo a gozo.

Acho que estou chegando,
Acho que posso levantar -
Contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu

Sou uma virgem pura
De acetileno
Cercada de rosas,

De beijos, de querubins,
Ou do que sejam essas coisas róseas.
Não você, nem ele,

Não ele, nem ele
(Eu me dissolvo toda, anágua de puta velha) -
Ao Paraíso.


Tradução de Rodrigo G. Lopes e Maurício A. Mendonça
Poemas, Editora Iluminuras, 1994 - S.Paulo, Brasil

Dec 19, '04 9:21 PM

Aquele outro não via, Hilda Hilst


Aquele outro não via minha muita amplidão
Nada lhe bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)

Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma fome irada e obsessiva?


Dec 19, '04 9:10 PM

Tem coisa melhor?



*Se apaixonar pela pessoa certa e ser correspondido.
*Rir a ponto de não agüentar mais.
*Um banho quente num dia de muito frio.
*Sem limites em um supermercado.
*Aquela encarada de fazer tremer.
*Receber e-mail de alguém que vc gosta e que não manda nunca.
*Dirigir por um lindo caminho.
*Escutar sua música favorita tocar no rádio.
*Deitar na cama e escutar a chuva cair.
*Cheiro de terra molhada.
*Pegar aquela chuva de verão e dar um beijo na chuva.
*Toalhas ainda quentes, recém passadas.
*Descobrir que a blusa que vc quer esta em promoção pela metade do preço.
*Um milkshake de chocolate (ou de ovomaltine)
*Uma ligação de alguém que está distante.
*Um banho de espuma.
*Uma boa conversa.
*Achar uma nota de R$ 50 no casaco do inverno passado.
*Rir de vc mesmo(a).
*Ligações depois da meia-noite que duram horas.
*Rir sem motivo nenhum.
*Ter alguém pra dizer o quanto você é linda(o).
*Rir de algo que acabou de lembrar.
*Amigos.
*Acidentalmente ouvir alguém falando bem de você.
*Acordar e descobrir que ainda pode dormir por mais algumas horas. *Gastar tempo com os velhos amigos ou fazer novos.
*Brincar com o novo bichinho de estimação.
*Ter alguém mexendo no seu cabelo.
*Sonhar com coisas boas.
*Realizar um sonho antigo.
*Chocolate quente.
*Viajar com os amigos.
*Empacotar presentes debaixo da árvore de Natal enquanto come biscoito de Chocolate.
*Letras de música no encarte do seu novo CD pra poder cantar junto sem se sentir idiota.
*Ir a um ótimo show.
*Encarar um(a) lindo(a) desconhecido (a)
*Ganhar um jogo super disputado.
*Fazer bolo de chocolate e raspar a panela da calda.
*Ganhar dos amigos biscoitos feitos em casa.
*Segurar na mão de alguém que vc realmente gosta.
*Encontrar um velho amigo e perceber que algumas coisas (boas ou ruins) nunca mudam.
*Ver a expressão no rosto de alguém quando abre o seu tão esperado presente.
*Olhar o nascer do sol.
*Conseguir enxergar essas pequenas coisas boas da vida e saber dar muito valor a isso.
*Ter sorte.
*Acordar toda manhã e agradecer por mais um lindo dia.

Dec 16, '04 12:05 PM

Um beijo

que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso do prazer.

Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor "à escuta"
diria meu amor

Ana Cristina César

A teus pés, Global Brasiliense, 1993 - S.Paulo, Brasil
Nov 19, '04 1:37 PM

Lampejos de dor



E de novo essa dor desmedida
Que domina a alma
Um grito de luz no escuro
O breu dolorido
Espanta qualquer alegria passável
Lampejos de amplidão
De sentir-se menos perdida
No resto do tempo
Dor angústia
Que não passa
Vontade de fugir desaparecer
E cá estou fingindo-me presente
A cabeça longe dando voltas
O ficar aqui irrita
Busco o vinho, a maconha, o pó
Mas nada adianta
Isso não pára.
É a dor fina do estilete
A fuga do riso fácil da leitura banal,
Das pessoas que não acrescentam nada
Qualquer coisa, qualquer gente
Mais um se foi...
Perdida inebriada
Na vida incessante
Quando vai parar?


Nina Z.
Nov 19, '04 8:57 AM